Está tudo bem.

E isso, curiosamente, está deixando você nervosa.

Nenhuma urgência. Nenhuma discussão. Nada pegando fogo — nem literalmente, nem no grupo da família.

Era para ser paz.

Mas sua cabeça começa a conferir:

“Será que esqueci alguma coisa?”

“Por que fulano ainda não respondeu?”

“Está calmo demais.”

E pronto. A paz acabou de entrar para a lista de coisas suspeitas.

Não conseguir relaxar pode ter explicações diferentes

Ansiedade, estresse prolongado, privação de sono, excesso de responsabilidades, hábitos de preocupação e outros fatores podem dificultar o descanso.

Por isso não dá para concluir que toda pessoa que vive em alerta teve necessariamente um passado traumático ou que o corpo “esqueceu como relaxar”.

Mas existe algo interessante para observar: o que acontece dentro de você quando não existe nenhum problema concreto para resolver?

Para algumas pessoas, vigilância ficou muito familiar

Se durante muito tempo você precisou antecipar demandas, perceber mudanças no ambiente, evitar erros ou estar pronta para resolver o próximo problema, permanecer atenta pode ter se tornado um modo habitual de funcionar.

Não significa que exista uma memória única responsável por isso.

Significa que vale investigar quando essa prontidão aparece, o que ela parece tentar prevenir e em quais contextos ela se intensifica.

Essa investigação pode percorrer diferentes momentos da história — inclusive experiências muito precoces quando forem relevantes — sem presumir causalidade antes de conhecer aquela pessoa.

Esperar o próximo problema também é trabalho

Monitorar o celular.

Repassar conversas.

Checar se esqueceu algo.

Imaginar o que pode dar errado.

Nada disso aparece como tarefa concluída no fim do dia.

Mesmo assim, ocupa atenção.

É uma espécie de plantão que ninguém registrou no RH e, portanto, naturalmente também não paga adicional noturno.

Descansar não precisa começar com “relaxe”

Para quem está tensa, ouvir “relaxa” é uma experiência quase espiritual.

Você imediatamente pensa:

“Nossa. Como não pensei nisso antes?”

Em vez de transformar relaxamento em mais uma obrigação, pode ser mais útil perceber qual é a ameaça que sua cabeça está tentando localizar naquele momento.

Existe algo acontecendo agora?

Ou estou procurando antecipadamente algo para resolver?

Se sua mente vive no próximo problema antes de ele existir, leia Por que sua cabeça sofre por coisas que ainda nem aconteceram?.

Se o descanso dispara culpa, continue em Por que descansar dá culpa quando você mais precisa parar?.

Quando vale procurar ajuda

Se a ansiedade, tensão ou estado de alerta são frequentes, intensos, prejudicam sono, trabalho, relações ou fazem você evitar situações, vale procurar avaliação profissional. Não conseguir relaxar é uma experiência; sozinho, não é diagnóstico.

Por enquanto, continua tudo bem

Você não precisa usar os próximos cinco minutos para descobrir o problema que ainda não apareceu.

Se ele chegar, você lida com ele.

Se não chegar, excelente.

É uma ocorrência a menos para a central de monitoramento.


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Kelly Campos Muradás

Sou redatora e terapeuta integrativa, apaixonada por transformar caos mental em palavras que acolhem. Falo sobre autocuidado realista para quem vive com ansiedade, hiperatividade ou TDAH e o cansaço de tentar dar conta de tudo — sem romantizar, sem exigir perfeição. Aqui, você encontra leveza possível, dias bons o bastante e caminhos gentis pra se reencontrar. Aqui, você não precisa ser forte o tempo todo. Só precisa ser você, do jeito que dá.

2 comentários

TDAH em Mulheres Adultas: Sinais que Podem Passar Despercebidos - Tô Surtando · setembro 9, 2026 às 9:56 pm

[…] Além disso, TDAH e transtornos de ansiedade podem coexistir. […]

TDAH ou Ansiedade? Como Diferenciar Quando a Mente Não Para - Tô Surtando · setembro 17, 2026 às 5:53 pm

[…] Leia: Por que não consigo relaxar nem quando está tudo bem? […]

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