— Onde você quer jantar?

— Tanto faz.

— Então escolhe você.

Pronto. Três palavras e o que era para ser uma terça-feira comum virou processo seletivo para diretora mundial de restaurantes.

Italiano? Japonês? Hambúrguer? E se a outra pessoa não gostar? E se estiver caro? E se você escolher um lugar ruim? E se depois pensar que o outro teria sido melhor?

Daqui a pouco você não quer mais jantar. Quer que alguém revogue seu direito constitucional de decidir.

Não é o restaurante. É o que errar passou a significar.

Decidir exige abrir mão das opções que não foram escolhidas. Para algumas pessoas isso é só parte da vida. Para outras, cada escolha parece vir acompanhada de uma banca examinadora imaginária.

“Será que escolhi certo?”

“Será que vão gostar?”

“Será que eu deveria ter pensado melhor?”

Quando uma decisão pequena recebe o peso de uma consequência enorme, o cérebro tenta encontrar uma coisa que não existe: certeza absoluta antes de agir.

E como certeza absoluta não vem, você pesquisa mais, pergunta mais, compara mais, adia mais — até estar exausta demais para escolher qualquer coisa.

Quem aprendeu a considerar todo mundo pode perder a própria preferência de vista

Existe outro detalhe que quase nunca aparece quando falamos de indecisão.

Às vezes a dificuldade não está em descobrir qual opção é melhor. Está em perceber o que você quer sem consultar mentalmente a reação de todo mundo primeiro.

Se durante muito tempo foi importante evitar conflito, agradar, adaptar-se, não dar trabalho ou perceber rapidamente o que os outros esperavam, escolher por si mesma pode carregar um desconforto que não combina com o tamanho da decisão atual.

O cardápio tem quatro páginas. Sua história trouxe outras cinquenta.

Por isso vale observar: quando alguém diz “escolhe você”, aparece liberdade ou aparece responsabilidade demais?

A decisão termina, mas o julgamento continua

Tem gente que finalmente escolhe e depois inaugura a segunda temporada: revisar a decisão.

“Eu devia ter pedido o outro.”

“Eu devia ter respondido diferente.”

“Eu devia ter esperado.”

A escolha acaba, mas a mente continua tentando voltar no tempo para encontrar uma versão sem risco, sem perda e sem possibilidade de arrependimento.

Não existe.

Decidir não é descobrir a alternativa que garante que nada dará errado. Muitas vezes é escolher com as informações disponíveis e continuar capaz de ajustar a rota depois.

Se você percebe que essa necessidade de prever consequências aparece em várias áreas, leia Você pensa, repensa e prevê tudo. Mas o que está tentando evitar?.

Então… onde você quer jantar?

Agora a pergunta continua sendo pequena.

O que pode ter ficado enorme ao longo da vida é o significado de escolher errado, desagradar alguém ou não conseguir prever o resultado.

Às vezes recuperar a própria escolha começa menos com “qual é a opção perfeita?” e mais com uma pergunta bem menos sofisticada:

o que eu quero, antes de tentar adivinhar o que todo mundo vai achar?

E se o restaurante for ruim, parabéns: você acaba de descobrir que uma decisão pode dar errado sem virar uma tragédia grega em três atos.


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Kelly Campos Muradás

Sou redatora e terapeuta integrativa, apaixonada por transformar caos mental em palavras que acolhem. Falo sobre autocuidado realista para quem vive com ansiedade, hiperatividade ou TDAH e o cansaço de tentar dar conta de tudo — sem romantizar, sem exigir perfeição. Aqui, você encontra leveza possível, dias bons o bastante e caminhos gentis pra se reencontrar. Aqui, você não precisa ser forte o tempo todo. Só precisa ser você, do jeito que dá.

2 comentários

Você sente que está sendo julgada o tempo todo — mesmo quando ninguém disse nada? - Tô Surtando · setembro 16, 2026 às 7:49 pm

[…] Se decidir fica difícil justamente porque você tenta prever o que todos vão pensar, continue em Por que decidir coisas simples parece tão difícil?. […]

Você sabe o que todo mundo espera de você. Só não sabe mais o que você quer. - Tô Surtando · setembro 16, 2026 às 11:27 pm

[…] Se até decisões simples ficam enormes, leia Por que decidir coisas simples parece tão difícil?. […]

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