7h11.

Ela está procurando o celular.

Com a lanterna do celular.

Demora alguns segundos.

Não vamos julgá-la. O dia nem começou direito.

O problema é que essa não é exatamente uma exceção na vida dela.

Ontem foi a chave.

Anteontem, o cartão.

Semana passada ela encontrou o controle remoto dentro do armário da cozinha e decidiu que algumas perguntas não precisam de resposta.

Ela ri.

Mas também se irrita.

Porque existe uma diferença entre ser distraída de vez em quando e passar anos sentindo que administrar a própria vida exige um esforço que ninguém parece perceber.

E é assim que o TDAH pode atravessar a vida de algumas mulheres adultas sem aquela placa enorme dizendo:

“OI, SOU TDAH.”

Às vezes ele chega à vida adulta com outros nomes.

Bagunça.

Procrastinação.

Esquecimento.

Desorganização.

“Cabeça nas nuvens.”

“Você só precisa se esforçar mais.”

E talvez o pior de todos:

“Eu sou assim mesmo.”

8h03 — Ela ainda nem saiu de casa e já está cansada

Não aconteceu nenhuma grande tragédia.

Esse é justamente o problema.

Foram pequenas coisas.

Escolheu uma roupa.

Desistiu.

Escolheu outra.

Lembrou que precisava responder uma mensagem.

Abriu o WhatsApp.

Viu outra conversa.

Respondeu aquela.

Foi pegar água.

Encontrou alguma coisa fora do lugar.

Guardou.

No caminho, lembrou do boleto.

Quando voltou para o quarto, ficou alguns segundos olhando em volta.

“O que eu estava fazendo mesmo?”

A roupa continua em cima da cama.

Não parece grande coisa quando cada episódio é observado separadamente.

Mas faça isso acontecer muitas vezes, todos os dias, durante anos.

A questão deixa de ser apenas quantas coisas ela esquece.

Passa a ser quanta energia ela gasta tentando não esquecer.

9h38 — A tarefa está aberta. Ela também. Só não uma para a outra.

Ela precisa terminar uma coisa importante.

Sabe disso.

Quer terminar.

Inclusive está pensando nisso há dois dias.

O arquivo está aberto na tela.

E ela?

Ela respondeu um e-mail.

Pesquisou uma informação que poderia esperar.

Levantou para buscar café.

Voltou.

Abriu outra aba.

Fechou.

Abriu de novo porque esqueceu por que tinha aberto.

Resolveu uma pendência de quatro minutos que estava parada há três semanas.

E o trabalho importante continua ali.

Preservado para as futuras gerações.

É nessa hora que ela começa a ficar brava consigo mesma.

Porque ela sabe o que precisa fazer.

Então por que simplesmente não vai lá e faz?

Em adultos com TDAH, a dificuldade nem sempre está em saber o que precisa ser feito. Organizar, priorizar, iniciar e sustentar uma atividade também podem fazer parte do problema.

Mas ela não sabe disso.

Ela conhece uma explicação bem mais curta:

falta de disciplina.

11h52 — Agora ninguém tira essa mulher da cadeira

Aconteceu.

Alguma coisa fisgou sua atenção.

E aquela pessoa que passou duas horas negociando com uma tarefa agora mergulhou em outra como se o restante do planeta tivesse sido temporariamente desligado.

Chamaram.

“Já vou.”

Não foi.

O café esfriou.

Ela nem viu.

O horário do almoço passou.

Também não viu.

Quando finalmente olha para o relógio, sente aquela pequena falha na Matrix:

“COMO ASSIM JÁ SÃO DUAS E MEIA?”

E aí aparece uma das frases que mais confundem essa história:

“Mas quando você quer, você consegue focar.”

Consegue.

E isso não significa que consiga regular a própria atenção da mesma maneira em qualquer situação.

TDAH não é simplesmente “não conseguir prestar atenção”. A dificuldade pode estar justamente em controlar para onde a atenção vai, quando permanece e quando consegue sair dali.

Para quem olha de fora, parece contraditório.

Para quem vive dentro dessa cabeça, é só terça-feira.

15h46 — Ela tem 14 coisas para fazer e não sabe qual fazer primeiro

Agora nenhuma parece pequena.

Responder aquela mensagem.

Terminar o trabalho.

Marcar a consulta.

Comprar uma coisa para casa.

Resolver o negócio da escola.

Mandar o documento.

Não esquecer o aniversário.

Colocar roupa para lavar.

O cérebro recebe tudo ao mesmo tempo e responde com uma solução surpreendentemente eficiente:

vamos pensar em tudo e não decidir nada.

Ela tenta fazer uma lista.

A lista fica grande.

Agora ela também está ansiosa por causa da lista.

Fecha a lista.

Abre cinco minutos depois.

E começa a tarefa mais fácil porque pelo menos alguma coisa precisa sair dali.

No final da tarde, esteve ocupada praticamente o tempo inteiro.

Mas a sensação é:

“Não fiz nada.”

18h21 — E ninguém percebeu nada

Essa parte é importante.

Porque talvez você esteja imaginando alguém cuja vida esteja completamente desmoronando.

Não necessariamente.

Ela trabalha.

Cuida dos filhos.

Paga contas.

Lembra do aniversário da sogra — eventualmente graças ao Facebook, mas lembrou.

Entrega.

Resolve.

Dá conta.

As pessoas talvez até digam:

“Não sei como você consegue fazer tanta coisa.”

Ela também não.

O que ninguém vê é a quantidade de mecanismos que precisou construir para continuar funcionando.

Três alarmes.

Lembretes.

Listas.

Prazo falso antes do prazo verdadeiro.

Checar a bolsa duas vezes.

Voltar para conferir se trancou a porta.

Fazer de madrugada porque finalmente ninguém está interrompendo.

Esperar a urgência chegar porque, misteriosamente, quando tudo está pegando fogo, ela funciona.

Algumas mulheres passam anos compensando dificuldades desse tipo.

E quanto melhor conseguem compensar, mais fácil é alguém olhar e concluir:

“Mas você sempre deu conta.”

Sim.

Só esqueceram de perguntar quanto custava dar conta.

20h14 — Só que essa história não começou hoje

Se pudéssemos rebobinar o dia dessa mulher, passar pelas 18h, pelas 15h, pelas 11h e continuar voltando, talvez encontrássemos versões anteriores dela.

Aos 28.

Aos 20.

Aos 14.

Aos 8.

E talvez algumas cenas começassem a parecer estranhamente familiares.

A menina que esquecia o material.

A que começava o trabalho na véspera.

A que ouvia metade da explicação e passava a outra metade em algum lugar dentro da própria cabeça.

A que tinha potencial, mas “precisava se esforçar”.

A que era inteligente, mas “muito distraída”.

A que vivia perdendo as coisas.

Ou talvez fosse uma ótima aluna.

Porque dificuldades não precisam aparecer em forma de boletim vermelho.

Às vezes existe uma criança conseguindo acompanhar.

O que ninguém sabe é o esforço que ela está fazendo para conseguir.

E isso importa porque TDAH não é algo que surge repentinamente aos 35 anos.

É um transtorno do neurodesenvolvimento. Por isso, numa avaliação adequada, a história anterior da pessoa importa e os critérios diagnósticos consideram sintomas presentes desde a infância.

Mas uma vida não começa quando alguém aprende a ler.

Existem capítulos anteriores às lembranças que conseguimos contar.

Existem experiências, relações, ambientes e acontecimentos que também compõem a história de como cada pessoa chegou até aqui.

E isso não serve para sair procurando um culpado para cada coisa que sentimos.

Serve para lembrar que ninguém começa na página 137.

21h37 — “Então tudo isso significa que eu tenho TDAH?”

Não.

E seria irresponsável dizer que sim.

Você pode ter se reconhecido na chave perdida, na procrastinação, no hiperfoco, na dificuldade com o tempo e até na pobre roupa abandonada desde as 7h da manhã.

Ainda assim, esses comportamentos não pertencem exclusivamente ao TDAH.

Ansiedade pode bagunçar a concentração.

Exaustão também.

Dormir mal também.

Estresse, depressão e outras condições podem produzir dificuldades parecidas.

E TDAH e ansiedade também podem existir juntos, porque aparentemente a vida achou desnecessário respeitar a regra de “um problema por cliente”.

É justamente por isso que transformamos essa dúvida em outro artigo, em vez de tentar enfiar duas conversas dentro desta:

TDAH ou Ansiedade? Como Diferenciar Quando a Mente Não Para.

Para saber se existe TDAH, é necessária uma avaliação adequada por profissional habilitado. Não existe uma cena, um hábito ou um post da internet que feche esse diagnóstico sozinho.

23h16 — Finalmente silêncio

A casa diminuiu o volume.

Ela deita.

E agora aparece uma voz que esteve com ela o dia inteiro.

Não é a voz do TDAH.

É a voz que foi sendo construída depois de anos tentando explicar por que certas coisas pareciam tão difíceis.

“Você precisa se esforçar mais.”

“Você é muito desorganizada.”

“Você nunca termina nada.”

“Se tivesse mais disciplina…”

Depois de ouvir isso muitas vezes — inclusive de si mesma — chega uma hora em que ela para de dizer:

“Eu tenho dificuldade com isso.”

E passa a dizer:

“Eu sou assim.”

E talvez seja aí que mora uma das partes mais dolorosas dessa história.

Não apenas no que ela esqueceu.

Não apenas no que procrastinou.

Não apenas nas 48 abas que provavelmente continuam abertas no navegador.

Mas em tudo o que concluiu sobre si mesma tentando explicar aquilo que ainda não compreendia.

Talvez exista TDAH nessa história.

Talvez não.

Se essas dificuldades são persistentes e estão interferindo na sua vida, elas merecem uma avaliação adequada.

Mas existe uma coisa que você não precisa esperar diagnóstico nenhum para começar a desconfiar:

talvez “eu sou o problema” nunca tenha sido uma explicação muito boa.

E amanhã, quando ela acordar…

bom.

Primeiro precisamos descobrir onde ela deixou o celular.


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Kelly Campos Muradás

Sou redatora e terapeuta integrativa, apaixonada por transformar caos mental em palavras que acolhem. Falo sobre autocuidado realista para quem vive com ansiedade, hiperatividade ou TDAH e o cansaço de tentar dar conta de tudo — sem romantizar, sem exigir perfeição. Aqui, você encontra leveza possível, dias bons o bastante e caminhos gentis pra se reencontrar. Aqui, você não precisa ser forte o tempo todo. Só precisa ser você, do jeito que dá.

3 comentários

TDAH ou Ansiedade? Como Diferenciar Quando a Mente Não Para - Tô Surtando · setembro 9, 2026 às 10:23 pm

[…] Leia: TDAH em Mulheres Adultas: Sinais que Podem Passar Despercebidos. […]

Você não precisa de mais uma técnica de produtividade - Tô Surtando · setembro 10, 2026 às 1:18 am

[…] Chamaram de distração. Depois de preguiça. E você acreditou. […]

“Você nunca me escuta.” Já a sensação de não importar, não necessariamente. - Tô Surtando · setembro 14, 2026 às 9:38 pm

[…] E se você se reconhece nas dificuldades de atenção, distração e organização que também podem atravessar os relacionamentos, continue por Chamaram de distração. Depois de preguiça. E você acreditou.. […]

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