O copo está na pia.

Um copo.

Não uma enchente. Não uma intimação judicial. Não o colapso da civilização ocidental.

Um copo.

E você olha para ele com uma raiva que, se fosse proporcional à louça, exigiria pelo menos a presença de um guindaste.

A vontade é gritar: “CUSTAVA GUARDAR?”

Mas o copo não chegou sozinho. Ele só foi o último a entrar numa sala que já estava lotada.

Vamos fazer a autópsia desse surto

08h12: você saiu atrasada.

09h40: chegou uma cobrança que poderia ter sido um e-mail menos atravessado.

11h15: alguém pediu “só uma coisinha”.

13h30: você almoçou pensando no que ainda precisava resolver.

16h08: barulho, notificação, interrupção, mais uma decisão.

19h02: copo.

Se olharmos apenas para 19h02, sua reação parece absurda.

Se olharmos para o dia inteiro, o copo muda de cargo. De causa do problema para última gota.

Irritação desproporcional pode ser informação

Quando você está cansada, sobrecarregada ou sob estresse, sua margem para lidar com frustração pode diminuir. Isso não significa que toda irritação tenha a mesma origem nem que exista uma fórmula biológica única explicando seus acessos de raiva.

Significa que vale parar de analisar apenas o tamanho do gatilho e começar a observar o estado em que você estava quando ele chegou.

O barulho incomodou ou você já estava há horas sem um minuto de silêncio?

A pergunta foi realmente insuportável ou era a décima pessoa precisando de alguma coisa?

O atraso destruiu seu dia ou encostou numa necessidade antiga de manter tudo sob controle para não se sentir perdida?

A irritação pode estar apontando para limite, cansaço, invasão de espaço, excesso de demandas ou necessidade de previsibilidade. O interessante é descobrir qual história aquele incômodo está contando naquele momento.

O corpo costuma saber antes da frase “eu não aguento mais”

Antes do estouro, muitas vezes existem sinais menos cinematográficos.

Mandíbula apertada. Ombros duros. Impaciência. Vontade de ficar sozinha. Sensibilidade maior a barulho. Respostas cada vez mais curtas.

O problema é que quem aprendeu a continuar funcionando pode ignorar esses sinais até eles precisarem aumentar o volume.

Você não percebe “estou chegando no meu limite”.

Percebe “POR QUE ESSA TAMPA NUNCA FECHA DIREITO?”

A tampa, coitada, virou porta-voz de uma crise institucional.

Antes de administrar a raiva, confira o território

Em vez de transformar cada irritação em defeito de personalidade, algumas perguntas podem ser mais úteis:

O que está demais?

O que está entrando no meu espaço sem eu perceber?

O que venho tolerando para evitar conflito?

O que estou tentando manter funcionando sem ter recurso para isso?

Às vezes o limite que aparece como explosão já tentou aparecer antes como cansaço, incômodo e vontade de dizer não.

Se você costuma continuar funcionando e esconder o tamanho do desgaste, leia Você parece bem. E ninguém imagina o trabalho que isso dá..

E se sente que tudo depende de você, continue em Quando sua vida parece estar de pé só porque você está segurando tudo.

Voltando à cena do crime

O copo continua na pia.

Você pode pedir para quem deixou ali guardar. Pode guardar. Pode deixar para depois.

Mas antes de concluir que enlouqueceu porque um objeto de vidro quase provocou uma ruptura diplomática, olhe algumas horas para trás.

Às vezes o que precisa de atenção não é a última gota.

É o tamanho do copo que você vem enchendo sem perceber.


Avatar

Kelly Campos Muradás

Sou redatora e terapeuta integrativa, apaixonada por transformar caos mental em palavras que acolhem. Falo sobre autocuidado realista para quem vive com ansiedade, hiperatividade ou TDAH e o cansaço de tentar dar conta de tudo — sem romantizar, sem exigir perfeição. Aqui, você encontra leveza possível, dias bons o bastante e caminhos gentis pra se reencontrar. Aqui, você não precisa ser forte o tempo todo. Só precisa ser você, do jeito que dá.

0 comentário

Deixe um comentário

Espaço reservado para avatar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *