RELATÓRIO DE DESEMPENHO — USO INTERNO

Tarefa concluída: sim.

Problema resolvido: sim.

Resultado satisfatório: aparentemente.

Parecer da auditoria interna: “Você poderia ter feito melhor.”

É impressionante.

Você entrega, resolve, ajuda, trabalha, cuida e ainda mantém dentro da cabeça um departamento cuja única função parece ser encontrar o pixel torto da existência.

A autocrítica nem sempre está tentando destruir você

Às vezes ela está tentando impedir alguma coisa.

Errar.

Ser criticada primeiro por outra pessoa.

Passar vergonha.

Perder reconhecimento.

Decepcionar.

Se eu apontar todos os meus defeitos antes, talvez ninguém me pegue desprevenida.

Se eu exigir mais de mim, talvez continue sendo necessária.

Se eu nunca considerar suficiente, talvez eu nunca relaxe o bastante para falhar.

Não é uma regra universal sobre autocrítica. É uma pista possível: algumas cobranças internas funcionam menos como inimigas e mais como estratégias de controle que ficaram caras demais.

Auditoria nº 1: de quem é a régua?

Nem toda exigência nasceu dentro de você.

Algumas réguas foram construídas em ambientes em que desempenho recebia atenção, erro recebia reação, comparação era frequente ou ser “a responsável” rendia um lugar importante.

Outras foram sendo acrescentadas mais tarde: escola, trabalho, relacionamentos, maternidade, redes sociais e aquela mulher da internet que aparentemente acorda às 5h, medita, corre 12 quilômetros, prepara pão de fermentação natural e nunca perde a paciência com ninguém.

Suspeita.

A questão não é procurar um culpado pela sua voz interna. É descobrir quais critérios você continua obedecendo sem conferir se ainda fazem sentido.

Auditoria nº 2: qual é a ameaça escondida em “não foi bom o bastante”?

Pegue uma cobrança recorrente.

“Eu deveria produzir mais.”

Agora retire a frase moral e procure a consequência temida.

Se eu não produzir mais… o quê?

Vou parecer preguiçosa?

Vou perder espaço?

Alguém vai se decepcionar?

Vou deixar de ser a pessoa em quem todos confiam?

É aí que a crítica deixa de ser apenas “pensamento negativo” e começa a mostrar a função que pode estar desempenhando.

Auditoria nº 3: você usa consigo a mesma contabilidade que usa com os outros?

Sua amiga faz uma apresentação boa e esquece uma frase.

Você pensa: “normal”.

Você faz uma apresentação boa e esquece uma frase.

Sua auditoria abre investigação, convoca testemunhas e solicita imagens das câmeras de segurança.

Isso é útil porque mostra que nem sempre estamos diante de um padrão objetivo de qualidade. Às vezes existe uma regra especial, muito mais dura, aplicada exclusivamente à própria ré.

Se o medo de julgamento também aparece nas relações, leia Você sente que está sendo julgada o tempo todo — mesmo quando ninguém disse nada?.

E se descansar já dispara a sensação de que você deveria estar fazendo mais, continue em Por que descansar dá culpa quando você mais precisa parar?.

Conclusão da auditoria

Você não precisa acreditar em toda acusação só porque ela foi emitida em papel timbrado pela sua própria cabeça.

Algumas críticas apontam algo real que pode ser corrigido.

Outras apenas repetem uma antiga tentativa de garantir segurança, aprovação ou valor através de desempenho impecável.

Saber diferenciar as duas é muito mais interessante do que mandar o crítico interno calar a boca diante do espelho.

Status final do relatório:

Humana.

Com margem para erro.

Auditoria encerrada por hoje.


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Kelly Campos Muradás

Sou redatora e terapeuta integrativa, apaixonada por transformar caos mental em palavras que acolhem. Falo sobre autocuidado realista para quem vive com ansiedade, hiperatividade ou TDAH e o cansaço de tentar dar conta de tudo — sem romantizar, sem exigir perfeição. Aqui, você encontra leveza possível, dias bons o bastante e caminhos gentis pra se reencontrar. Aqui, você não precisa ser forte o tempo todo. Só precisa ser você, do jeito que dá.

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