— Você nunca me escuta.
Ele estava olhando para o celular enquanto você falava.
Você percebeu.
Ficou chateada.
Até aqui, absolutamente normal.
Ninguém gosta de contar alguma coisa para uma pessoa que parece mais interessada numa notificação do que na gente.
O interessante começa alguns segundos depois.
Porque ele não prestou atenção.
Mas dentro de você a conversa pode continuar assim:
“Ele não se importa.”
Depois:
“O que eu digo não é importante para ele.”
E, dependendo de onde isso encostou:
“Eu não sou importante.”
Olha a distância que percorremos.
Começamos com um homem olhando para o celular.
Terminamos questionando o seu lugar na vida dele.
E é justamente desse caminho que eu quero conversar com você.
Porque ficar chateada não é o problema
Você não precisa atingir um estado de evolução espiritual em que seu parceiro pode ignorar tudo o que você diz e você responde:
— Tudo bem, amor. Honro seu processo.
Não.
Pode ficar puta.
Você estava falando e queria ser ouvida.
O ponto não é esse.
O ponto é perceber quando o que aconteceu começa a ganhar uma dimensão muito maior do que a própria situação.
Ele se distrai.
Você sente que não importa.
Ele demora para responder uma mensagem.
Você começa a imaginar que está distante.
Ele muda o tom.
Você imediatamente procura o que fez de errado.
Ele quer ficar quieto.
E alguma coisa dentro de você pergunta:
“Será que ele não me quer mais?”
Nem sempre isso acontece em pensamentos tão organizados.
Aliás, seria ótimo se acontecesse.
Você poderia abrir uma planilha e acompanhar a evolução do surto.
Normalmente vem como sensação.
Um aperto.
Uma inquietação.
Uma necessidade de resolver aquilo imediatamente.
Você precisa saber se está tudo bem.
Precisa que ele responda.
Precisa entender o que aconteceu.
Precisa ter certeza de que vocês continuam bem.
E se não for só sobre o celular?
Essa é a pergunta.
Não:
“Por que você é tão sensível?”
Nem:
“Por que você faz tempestade em copo d’água?”
Essas perguntas só acrescentam julgamento a alguma coisa que já está difícil.
Eu ficaria curiosa por outra coisa:
por que uma pequena desconexão é percebida dentro de você como algo tão perigoso?
Porque o que aconteceu hoje pode ser novo.
Mas a sensação que apareceu talvez não seja.
E aí precisamos olhar um pouco para trás.
Não necessariamente para encontrar uma grande cena traumática escondida em algum lugar.
Às vezes não existe “a cena”.
Existe uma história construída em pequenas experiências.
Momentos em que você precisou de presença e ela não estava disponível.
Momentos em que precisou ser vista, acolhida, protegida ou compreendida e recebeu outra coisa.
Momentos em que aprendeu que precisava fazer alguma coisa para recuperar atenção, proximidade ou segurança.
E isso pode começar muito cedo.
Quando você era pequena, atenção significava muito mais do que atenção
Hoje você consegue racionalizar.
Seu parceiro está cansado.
Está preocupado com o trabalho.
Recebeu uma mensagem.
Está com a cabeça em outro lugar.
Você pode até pensar:
“Ele só se distraiu.”
Mas nos primeiros momentos da vida não existe esse raciocínio.
Uma criança pequena depende da presença, do contato, da resposta e da disponibilidade de quem cuida dela.
Ela ainda não consegue pensar:
“Mamãe está emocionalmente sobrecarregada hoje. Retomaremos nosso vínculo assim que as condições ambientais estiverem mais favoráveis.”
Seria uma criança insuportável, inclusive.
Ela vive aquilo no corpo.
Presença.
Ausência.
Contato.
Distância.
Segurança.
Alerta.
E experiências muito precoces podem deixar registros mesmo quando não existe uma lembrança organizada delas para contar.
Por isso, quando olhamos para uma reação de hoje, nem sempre a história começa onde a memória consciente consegue alcançar.
O corpo também tem memória.
Seu corpo não precisa saber que são histórias diferentes
Imagine que, em algum momento da sua história, não ter a atenção ou a presença de alguém importante tenha sido vivido como falta de segurança.
Isso não significa automaticamente que você foi abandonada.
Nem que seus pais fizeram alguma coisa terrível.
Nem que encontramos oficialmente “a causa” de todas as suas brigas amorosas.
Calma.
Ainda não vamos convocar a família inteira para uma reunião.
Significa apenas que o corpo aprende com aquilo que vive.
E quando encontra alguma coisa parecida, pode responder a partir do que já conhece.
Hoje:
ele olhou para o celular.
Mas o que seu corpo reconheceu pode ter sido:
“Perdi a conexão.”
E se, em algum momento, perder conexão esteve associado a insegurança, rejeição, ausência ou medo, a resposta pode vir muito maior do que trinta segundos de distração parecem justificar.
É por isso que você pode saber racionalmente:
“Ele não está me abandonando.”
e ainda assim sentir uma urgência enorme de recuperar aquela conexão.
Seu corpo não precisa saber que são histórias diferentes para reagir como se já conhecesse essa história.
E então começam aquelas brigas enormes por coisas minúsculas
Ele diz:
— Eu só estava vendo uma mensagem.
Você responde:
— Você faz isso sempre.
Ele:
— Meu Deus, não posso nem olhar para o celular agora?
Você:
— NÃO É SOBRE O CELULAR.
E olha…
pode ser que realmente não seja.
Só que você também não sabe exatamente sobre o que é.
Então tenta fazer o outro compreender o tamanho daquilo mostrando o tamanho da sua reação.
Aumenta o tom.
Explica de novo.
Traz aquela outra vez.
E aquela outra.
Quer uma resposta.
Quer que ele entenda.
Quer principalmente sentir novamente:
“Está tudo bem entre nós.”
Enquanto isso, ele está tentando entender como chegou a uma crise no relacionamento depois de abrir o WhatsApp.
Os dois estão discutindo a mesma cena.
Mas talvez não estejam vivendo a mesma ameaça.
É por isso que “você está exagerando” não resolve
Às vezes você está mesmo reagindo a algo muito maior do que aconteceu.
Mas chamar isso de exagero não explica absolutamente nada.
Você já sabe que gostaria de reagir diferente.
Provavelmente já prometeu:
“Na próxima vez eu não vou ligar.”
A próxima vez chega.
Você liga.
Porque não estamos falando apenas de uma decisão racional.
Se determinada situação é reconhecida pelo seu corpo como ameaça à conexão, você não resolve isso simplesmente repetindo:
“Não deveria me importar.”
A pergunta mais interessante passa a ser:
“O que meu corpo acha que está acontecendo aqui?”
Não para acreditar automaticamente na resposta.
Mas para finalmente entender por que uma coisa aparentemente pequena consegue produzir algo tão grande dentro de você.
A conversa era de hoje. A sensação de não importar, não necessariamente.
Volta para aquela cena.
Você estava falando.
Ele se distraiu.
Você ficou chateada.
Isso aconteceu hoje.
Mas quando:
“ele não me ouviu”
vira:
“eu não importo”
existe alguma coisa no meio dessas duas frases que merece ser olhada.
Talvez agora exista uma pergunta antes da próxima resposta:
O que exatamente doeu tanto aqui?
Não para decidir quem está certo.
Nem para transformar uma discussão de casal numa sessão terapêutica improvisada na cozinha.
Mas para perceber que, às vezes, a pessoa que está na nossa frente encostou sem saber numa história que começou muito antes dela.
E isso muda bastante coisa.
Porque você deixa de precisar provar que aquela distração era enorme.
Ela não precisava ser.
O que ela encontrou dentro de você é que pode ser muito maior.
E talvez algumas brigas parem de parecer tão incompreensíveis quando percebemos que nem tudo o que chegou à discussão começou nela.
Se a sua cabeça não para depois dessas situações…
Se depois de uma pequena mudança de comportamento você começa a rever conversas, criar cenários e procurar sinais de que alguma coisa está errada, eu já falei sobre essa mente que entra em alerta em TDAH ou Ansiedade? Como Diferenciar Quando a Mente Não Para.
E se você se reconhece nas dificuldades de atenção, distração e organização que também podem atravessar os relacionamentos, continue por Chamaram de distração. Depois de preguiça. E você acreditou..
Uma reação intensa não permite concluir sozinha de onde ela veio, assim como dificuldades de atenção não são suficientes para diagnosticar TDAH. Quando isso se repete e interfere na sua vida ou nos seus relacionamentos, vale investigar a sua história e, quando necessário, buscar uma avaliação profissional adequada.
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